Consciência de si no mundo

  Educação familiar e educação escolar

 

Este pequeno texto visa refletir sobre a transformação vivida pelas crianças na transição de sua

dependência estrita da família para a dependência juvenil relativa até sua independência adulta.

Nesse intrincado movimento é a constituição de uma nova individualidade que se processa. 

Da interação social dessa individualidade ocorrerá o desenvolvimento da consciência de si no mundo.

 

O tempo que a criança passa no bojo do ensino básico ou fundamental é o tempo da formação, ainda que não totalmente, da sua individualidade, da sua psique, ou poderíamos ainda dizer, da sua subjetividade. Ao término dessa fase a criança está próxima de se transformar num indivíduo com certa independência na sua interação social — falamos do tempo em que a criança vive interagindo com o meio social via família, passando a sujeito agindo individualmente — fazendo escolhas, experimentando vontades próprias, decidindo sobre ensino médio, rumos de carreiras profissionais, namoros, amizades,prazeres e perigos. Serão muitas e contraditórias as emoções a se viver. Ao sair do ensino fundamental, a vida adulta, com todas as suas vicissitudes, aproxima-se rapidamente. Ainda será necessário passar pela contraditória e conturbada adolescência. A transição da infância para a juventude é carregada de dúvidas e incertezas, medos e experimentações, por isso a importância de uma educação básica bem organizada, com propósitos bem definidos, pois quanto mais instrumentalizada a pessoa chegar a esse momento, melhor enfrentará os desafios.

Esse processo de transformação que a criança vive até chegar à fase adulta é formulado pelo psicólogo russo L. S. Vygotsky¹ como o momento de desenvolvimento das funções psicológicas superiores, como a memória, a atenção deliberada, a ação intencional, a capacidade de planejamento etc. Em nosso ciclo de vida ainda guardamos semelhanças com outras formas de vida. Embora os ritmos e processos sejam diferentes, invariavelmente todo ser vivo transita por fases que vão da germinação/fecundação, nascimento, crescimento, fase adulta ou reprodutiva, envelhecimento e morte. Se nos atermos apenas ao grande e variado grupo dos animais vertebrados, encontraremos tamanhos e complexidades cerebrais muito diversas. Entre os mamíferos, por exemplo, encontramos diferentes tipos de relações entre pais, mães e filhos. A necessidade do leite nos primeiros tempos define um contato maior das mães com seus filhotes. No geral, cada indivíduo animal nasce na espécie, porém, aprenderá a ser a espécie a qual pertence convivendo com os demais membros de sua população. Incontáveis produções científicas demonstram casos de filhotes aprendendo a ser aquilo que ele é convivendo em seu agrupamento imediato — a família, que o alimenta e protege. No convívio familiar desenvolverá habilidades interagindo com o meio que o cerca. Lembremos que, mesma espécie vivendo em ambientes diferentes encontra soluções diferentes para atender necessidades iguais, como a fome, por exemplo. As habilidades piscomotoras associadas ao conhecimento sobre o ambiente são os instrumentais necessários para garantir o ciclo da sua vida.

 Na educação do ser humano há duas instâncias que se destacam nesse processo da constituição da ‘‘consciência de si no mundo’’. A primeira é, sem dúvida, a família. É na segurança da família que a criança começa a aprender a ser humana, começa a distinguir o mundo a sua volta, a desenvolver as habilidades mais básicas, a pronunciar as primeiras palavras e a desenvolver um repertório de habilidades, palavras e conhecimento. A educação escolar possui, potencialmente, papel crucial na formação da nova individualidade. Entretanto, a educação fundamental escolar se distingue da educação familiar. É na família que a criança nasce, mas é no convívio social ou na sua interação com o social para além da família que emerge sua individualidade. É na interação social que o indivíduo se posiciona de fato. O principal complexo social fora da família que a criança encontra em seu processo educativo é a instituição escola. A escola possui importante papel à medida que possibilita a aquisição dos instrumentais necessários para a vida adulta. Na segurança da família, a criança adquire confiança, tranquilidade, aprende valores como o respeito pelas pessoas e pelo ambiente, pode aprender sentido de organização ou noção dos cinco sentidos etc. Na escola aprende a fracionar um inteiro, a adjetivar um substantivo, a relacionar estrelas e planetas, a distinguir e relacionar as partes do próprio corpo, a desenhar um polígono, a conjugar um verbo, a localizar os acontecimentos na História, a adicionar, multiplicar e dividir, a perceber as diferenças estéticas nas artes, a considerar as diferentes formas das galáxias, a compreender a expressão do código genético na diversidade da vida, a reconhecer as transformações de seu próprio corpo. Em história aprenderá que as configurações sociais passadas e do presente são resultado de contraditórios interesses econômicos e políticos. Ou seja, na escola aprenderá diferentes linguagens para acessar a cultura humana. Enfim, no processo de desenvolvimento da consciência de si no mundo, a individualidade que se constitui depende da família para aprender valores morais e a se relacionar com o ambiente e com o outro e da escola para lhe possibilitar o  instrumental científico necessário para o posicionamento que a sociedade lhe exigirá.

                                                                                                                                                                                                  N. Moretto - Coordenador Pedagógico

 

¹Psicologia Pedagógica, Vygotsky, L. S., São Paulo : Martins Fontes, 2010.

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