A Festa Junina celebra mais do que o modo de vida do caipira; ela representa a assimilação do estereótipo caboclo pelo cenário urbano. Em outras palavras, tenta extrair do campo aquilo que pensa ser típico: roupas remendadas, danças em pares, batata assada na fogueira, muito “uai”, “sô” e chapéu de “paia”.

Na verdade, nem todas estas características são peculiares ao caipira. Muitas, aliás, chegam a ser preconceituosas. Essa história mal contada começou no século passado, quando a imagem do homem do campo passou a ser associada ao cenário decadente da zona rural. Com o desenvolvimento industrial e a modernização das cidades, o caipira se transformou no símbolo do atraso: pobreza, desinformação e analfabetismo aderiram ä sua figura como uma maquiagem permanente.

A partir de 1870, porém, o sucesso econômico do café (que muito deve aos “caipiras” italianos), aliado ao forte sentimento nacionalista emergente no país, renovam a figura do caboclo. A literatura começa a lhe dar voz e vez. Escritores como Bernardo Guimarães fazem dele um símbolo nacional, relacionando-o aos valores da terra. O realismo abre espaço para o sotaque caipira, que ganha papel de protagonista nas narrativas.

Ainda assim as caricaturas persistem até hoje. Sentimos dificuldade em perceber que nossos Jecas Tatus são cidadãos comuns como outros quaisquer, dotados de consciência e personalidade.

Se abrirmos a porteira da reflexão, talvez nos descubramos como compadres.

Em tempos de globalização, caipira somos todos nós.